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A IA mandou uma pista falsa de assassinato para a polícia. A defesa já estava escrita.

11 de outubro de 2026 · 4 min de leitura

Trabalho
Erros da IA
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Especialistas

Sábado, 18 de julho, 23h27. No PhillyUnsolvedMurders.com, o site em que a polícia da Filadélfia recebe pistas sobre assassinatos sem solução, chega uma mensagem de alguém que diz ter informação sobre um dos casos.

Não era alguém. Era um modelo de IA da Anthropic, num teste automático que visitava sites escolhidos ao acaso. A informação era inventada. A Anthropic só percebeu em 28 de setembro e só avisou a polícia em 7 de outubro, um atraso que a prefeitura chamou de inaceitável.

Estavam em jogo um crime real, uma família à espera e uma pista falsa assinada como se viesse de quem sabe do caso. Mas a pista não causou estrago. E o que segurou o estrago não foi um sistema mais inteligente. Foi uma regra escrita, que diz mais sobre o seu trabalho do que sobre o da polícia. Antes de chegar nela, olhe o resto da semana, porque o mesmo padrão apareceu longe de qualquer delegacia.

722 artigos de matemática, publicados de uma vez

Na terça-feira, 6 de outubro, a OpenAI publicou no GitHub 722 manuscritos de matemática produzidos por um modelo interno, ainda não lançado. É o mesmo modelo que, em setembro, a empresa disse ter resolvido a equação de Navier-Stokes, um dos sete Problemas do Milênio.

O próprio repositório avisa que os resultados estão em estágios diferentes de verificação, que nem todos têm a prova conferida por computador e que alguns podem ter problemas. No dia seguinte, a Association for Human Mathematics, um grupo de matemáticos, pediu que os colegas parassem de trabalhar com a OpenAI: publicar mais de 700 arquivos de uma vez, escreveram, não é demonstração de conhecimento, é demonstração de poder.

Dá para discordar do tom. Mas o ponto de fundo fica: produzir 722 manuscritos ficou fácil. Conferir continua exigindo gente que entende de matemática, uma página de cada vez.

Até a conferência automática precisa de alguém conferindo

A saída óbvia seria a máquina conferir a máquina. Foi o que a OpenAI fez com a Navier-Stokes: além do texto, publicou a prova em Lean, uma linguagem em que o computador verifica cada passo de uma demonstração.

Em 6 de outubro, Alexander Bastounis, Fabian Circelli e Anders Hansen contestaram essa garantia num artigo no arXiv. Alguém precisa traduzir a prova escrita para o Lean, e quem faz essa tradução também é a IA. Segundo eles, a prova em Lean não corresponde à prova escrita. O computador aprovou a versão traduzida, e isso pode não dar confiança nenhuma de que o argumento original esteja certo.

Vale para qualquer área: a conferência automática só serve se alguém que entende do assunto confirmar que ela confere a coisa certa.

A IA não inventa sozinha e muda de ideia fácil demais

Em 7 de outubro, o Epoch AI publicou um teste em que os modelos mais fortes tinham de inventar, sozinhos, uma técnica nova de treinamento de IA. O GPT-5.6 Sol gastou cerca de US$ 14 mil em processamento e chegou a algo parecido com o que já existia. A conclusão do Epoch: as descobertas ficaram aquém do padrão da pesquisa feita por pessoas.

Na mesma semana, Ethan Mollick, professor da Wharton, apontou um defeito mais discreto: quando alguém discorda da IA, ela costuma simplesmente ceder, quando deveria ao menos tentar defender a ideia e só recuar se estivesse mesmo errada.

Junte os dois casos: a IA não sabe sozinha o que é novo nem quando está certa. Quem sabe é quem conhece a área.

O que fazer na segunda-feira

Imagine o Mário, engenheiro com vinte anos de obra. Ele pede para a IA resumir uma norma técnica que vai usar num laudo. A resposta vem limpa e segura. Ele pergunta se ela tem certeza, e a IA troca a resposta. Qual das duas vai para o laudo? Nenhuma, até o Mário conferir.

Ele não precisa conferir tudo. Precisa saber onde fica o ponto de conferência e o que confere ali. Para montar o seu, use uma tarefa só:

  • Escolha uma tarefa em que você já usa IA ou quer começar a usar.
  • Marque o momento em que o resultado sai da sua mão: vai para o cliente, para o sistema ou para uma decisão. Esse é o ponto de conferência.
  • Escreva os três ou quatro itens que causam estrago se estiverem errados: número, norma, nome, prazo.
  • Escreva o que acontece quando um item falha: a IA refaz, você consulta alguém ou descarta o resultado.
  • Quando a IA mudar de resposta porque você discordou, peça que ela mostre de onde tirou cada versão, e decida você.

A regra que segurou a pista falsa

Volte para a Filadélfia. Depois do aviso da Anthropic, a polícia procurou a pista nos registros do site. Achou. O e-mail correspondente tinha ficado no spam.

Mas não foi o spam que a polícia apontou como proteção. A nota oficial diz que o processo do departamento exige revisão e checagem humana antes de qualquer pista seguir para investigação. E traz a frase que eu colaria na parede de qualquer empresa que usa IA: uma pista é uma informação a avaliar, não um fato estabelecido. Uma mensagem automática não pula esse processo.

A defesa não foi inventada depois do erro. Ela já estava escrita, e põe uma pessoa que entende do assunto entre a informação e a decisão.

A IA desta semana escreveu uma pista falsa de homicídio, 722 manuscritos de matemática e uma prova que o computador aprovou. Em todos os casos, a peça que faltou ou que salvou foi a mesma: alguém que entende do assunto e confere antes de decidir.

O especialista não perdeu valor. Ele virou a parte que faz a IA funcionar. Não existe IA funcionando em processo que ninguém escreveu, nem em processo que ninguém confere.


Fontes


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