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Trilhões em IA, e a Amazon avisou: medir pelo uso é falho
1 de novembro de 2026 · 7 min de leitura
Foi uma semana de números grandes. Na segunda-feira, 26 de outubro, a Meta anunciou que vai levantar US$ 95 bilhões com venda de ações para pagar data centers e outros projetos de inteligência artificial. No mesmo dia, a Microsoft ofereceu demissão voluntária a cerca de 60 mil funcionários, perto de um quarto da empresa, num momento em que o gasto dela com infraestrutura de IA não para de subir. O Goldman Sachs estima que o investimento mundial ligado à IA pode chegar a US$ 7,6 trilhões entre 2026 e 2031.
Na quinta e na sexta veio a conta. A Alphabet, dona do Google, teve o pior dia da história na bolsa e perdeu cerca de US$ 500 bilhões em valor. A Intel caiu quase 29% num dia só, a maior queda desde 1974. E a Amazon confirmou que vai investir cerca de US$ 220 bilhões em 2026, puxados principalmente pela IA, e viu as ações caírem.
No meio disso, na terça-feira, 27 de outubro, a Amazon publicou um documento que passou quase despercebido perto desses valores. E ele responde melhor do que qualquer balanço à pergunta que o mercado estava fazendo.
O que a Amazon escreveu
O texto é uma orientação nova para os engenheiros de software da Amazon. Quem assina é Terk Terkowitz, vice-presidente da empresa, que escreveu junto com outros engenheiros do topo da carreira técnica. A orientação já circulava internamente desde setembro, e a Amazon publicou no site na terça.
O trecho que chamou atenção fala das métricas que muita empresa usa hoje para saber se a IA está pegando: quantos tokens cada pessoa consome (token é a unidade que mede quanto texto a IA lê e escreve), quantas pessoas adotaram a ferramenta, quantas linhas de código a IA gerou, quantas alterações e revisões foram feitas.
Sobre elas, a Amazon escreveu: "Todos sabemos o quanto essas métricas são profundamente falhas, principalmente porque estão desconectadas do que importa." E completa que, usadas como meta e não como medida, elas podem levar a resultados ruins: mais custo e mais complexidade.
O que a empresa quer no lugar está em outra frase: "Acreditamos que o melhor é medir, e ser medido, por resultados de longo prazo." Para a Amazon, resultado é o efeito no cliente, no negócio e na equipe.
E tem uma terceira frase que vale guardar: "Se o seu trabalho não se beneficia das ferramentas de IA atuais, isso é uma descoberta, não uma falha." Segundo o texto, o engenheiro que consegue explicar onde a IA ainda não ajuda está mostrando exatamente o julgamento que a empresa quer.
A Amazon não aboliu a métrica de uso
Vale ser preciso aqui, porque muita manchete exagerou. A Amazon não proibiu ninguém de medir uso. O próprio documento diz que essas métricas ainda podem ser usadas, "com cuidado e julgamento". O que ela condena é transformar o uso em meta.
A diferença parece pequena e não é. Medir quanto a equipe usa a IA é como olhar o termômetro: ajuda a entender o que está acontecendo. Dar bônus para quem usa mais é como premiar quem deixa o termômetro mais quente. As pessoas aprendem rápido a esquentar o termômetro.
A Amazon aprendeu isso na prática
A empresa não chegou a essa conclusão na teoria. Em maio, ela tirou do ar um ranking interno que funcionários criaram para mostrar quem mais usava o Kiro, a ferramenta de programação com IA da própria Amazon. O ranking acabou estimulando o que nos Estados Unidos ganhou o apelido de "tokenmaxxing": usar a IA o máximo possível para aparecer bem no painel, sem perguntar se aquilo dava algum resultado. O consumo subiu, e o custo junto.
É uma regra antiga da gestão, que os economistas chamam de lei de Goodhart: quando uma medida vira meta, ela deixa de ser uma boa medida. Vale para vendedor que bate meta de ligação sem vender, e vale para equipe que bate meta de uso de IA sem entregar nada melhor.
O mercado fez a mesma pergunta na mesma semana
O que os investidores cobraram das gigantes nessa semana é, no fundo, o que a Amazon cobrou dos próprios engenheiros: cadê o resultado?
A Alphabet caiu quase 13% na quinta-feira, 29 de outubro. O balanço mostrou um gasto com IA e data centers tão alto que a empresa gastou mais dinheiro do que gerou no trimestre, e ainda admitiu que o modo de busca com IA do Google traz menos dinheiro de anúncio do que a busca tradicional. Ou seja: mais gasto e, por enquanto, menos receita no produto que mais dá dinheiro.
A Intel caiu na sexta por um motivo que mostra o tamanho da onda. Os data centers de IA estão comprando tanta memória que o computador comum ficou mais caro e está vendendo menos, e a Intel depende muito da venda de computador. A previsão dela é que as vendas de PC caiam cerca de 12% em 2026.
Na semana passada, mostramos aqui que a Apollo não encontrou sinal de retorno da IA nas empresas fora da tecnologia. Nesta semana, a desconfiança chegou às próprias gigantes. E nenhuma delas está pedindo para gastar menos com IA. A Amazon já avisou que vai gastar ainda mais em 2027. O que mudou é que ninguém aceita mais o gasto como prova de que está dando certo.
Como isso aparece no escritório do Mário
Imagine o Mário, que tem quinze anos de experiência e coordena o atendimento de uma empresa de planos de saúde. No começo do ano, a diretoria comprou uma ferramenta de IA para toda a equipe e passou a acompanhar um painel: quantas pessoas entraram, quantas perguntas fizeram, quantas respostas a IA escreveu.
Em seis meses, o painel está lindo. Noventa por cento da equipe usa toda semana. Na reunião de resultados, o número aparece no slide, todo mundo comemora, e ninguém pergunta o que interessa: o cliente está sendo atendido mais rápido? Voltam menos reclamações? A equipe tem mais tempo para os casos difíceis?
Ninguém sabe, porque ninguém mediu isso antes de a ferramenta chegar. E, como o painel premia o uso, a equipe passou a abrir a IA até para o que fazia melhor e mais rápido sem ela.
A culpa não é do Mário nem da equipe. Foi isso que ensinaram: compre a ferramenta, espalhe pela empresa e acompanhe a adoção. O painel de uso vem pronto com a ferramenta. O painel de resultado ninguém entrega, porque ele depende de uma coisa que só a empresa tem: saber como o trabalho é feito.
Por que medir resultado começa pelo processo
Aqui está o ponto que a orientação da Amazon não diz com essas palavras. É uma leitura minha, não dela: só dá para medir o resultado de um trabalho que está escrito.
Para saber se a IA deixou o atendimento mais rápido, é preciso saber quanto tempo ele levava antes, em que etapa trava e o que conta como atendimento bem feito. Isso é processo. Sem processo escrito, a única coisa que dá para contar é o uso, porque é a única coisa que a ferramenta registra sozinha.
Por isso a empresa que trabalha no improviso acaba medindo uso: não é preguiça, é falta de outra coisa para medir. E a empresa com processo mede resultado quase sem esforço, porque já sabe onde olhar.
O que fazer na segunda-feira
Pegue uma tarefa em que a equipe já usa IA e troque a pergunta "quem está usando?" por "o que melhorou?":
- Escreva a tarefa em passos: o que entra, o que acontece em cada etapa e o que sai no fim.
- Escolha dois ou três números de resultado, não de uso: tempo do começo ao fim, quantos erros ou retrabalhos voltam, quantas entregas saem por semana.
- Se ainda não tem o número de antes, meça agora uma semana sem mexer em nada. É o seu ponto de partida.
- Marque em que passo a IA entra e em que passo uma pessoa confere.
- Depois de 30 dias, compare. Se a IA não ajudou em algum passo, anote: como diz a Amazon, isso é uma descoberta, não uma falha.
- Se a empresa acompanha um painel de uso, mantenha, mas como termômetro. Nunca como meta nem como bônus.
A semana mostrou duas coisas ao mesmo tempo. As maiores empresas do mundo vão continuar gastando trilhões com IA. E o mercado parou de aceitar só o gasto como sinal de que está dando certo.
A Amazon, que gasta mais do que quase todo mundo, chegou à mesma conclusão por dentro: uso não é resultado. Para uma empresa comum, a lição é ainda mais simples. Antes de perguntar quanto a equipe usa a IA, escreva como o trabalho é feito e o que conta como trabalho bem feito. Processo antes da ferramenta, e resultado antes do uso.
Fontes
- Amazon · orientação sobre IA para engenheiros de software, Terk Terkowitz (27/10/2026)
- CNBC · Amazon's anti-tokenmaxxing memo says engineers should be pickier about using AI (27/10/2026)
- CNBC · Amazon posts negative free cash flow of $42.4 billion, holds 2026 capex unchanged (29/10/2026)
- CNBC · Alphabet tanks nearly 13% for worst day ever, losing $500 billion in value (29/10/2026)
- CNBC · Intel stock has worst day since 1970s (30/10/2026)
- Yahoo Finance · Intel stock plunges nearly 29%, its worst day since 1974 (30/10/2026)
- CNBC · Meta stock offering for AI, US$ 95 bilhões (26/10/2026)
- CNBC · Microsoft offers voluntary buyouts to 60,000 employees (26/10/2026)
- Apollo · No Signs of AI Payoff Outside the Tech Sector, Torsten Slok (24/10/2026)
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